quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Poder eterno ao Rei

Imagem internet
Traçar a queda da autocracia etíope sob o reinado de Hailé Selassié através da visão de seus súditos e devotos incondicionais. Essa é a intenção de Ryszard Kapuscinki, autor do livro O Imperador, a queda de um autocrata.


No livro, Kapuscinski dá voz aos que não eram ouvidos, procurando formar através dos relatos de diferentes personagens, a história extraordinária sobre um reinado que durou mais de 40 anos.

A fontes do autor não foram ministros, governadores ou generais, que cercavam Selassié, mas sim funcionários do palácio em Adis-Abeba, capital etíope, que serviam e veneravam seu imperador.

“Não eu não estava sozinho; tinha um guia”.

“Agora que ele já morreu, posso revelar seu nome: Teferra Gebrewold”.

Com isso, o ponto de vista dominante no livro é o dos subalternos, daqueles que quase postados no chão contemplam o poder de baixo para cima. São eles serviçais encarregados de limpar os sapatos dos dignitários, ou o que colocava as almofadas sob os pés de Selassié quando ele sentava no trono evitando que suas pernas balançasse.

Kapuscinski apresenta as narrações apenas com as iniciais de sua fonte, para que assim se preserve as identidades. O que não interfere na montagem cronológica do livro, pois o autor consegue extrair relatos minuciosos onde uma história complementa a outra.

Na visão dos súditos o imperador não era um homem, era um ser grandioso, livre de qualquer culpa pelas desordens que aconteciam na Etiópia, afinal existiam os ministros que eram os responsabilizados por quaisquer desordem- mesmo que o imperador estivesse ciente de seus erros, o que acontecia na maioria das vezes.

“Agradava-lhe que seus cortesãos multiplicassem seus bens, engordassem suas bolsas. Não consigo me lembrar de um só caso em que o gracioso monarca tenha anulado uma promoção ou expulsado alguém do palácio por corrupção. Corrompam-se à vontade, desde que permaneçam leais a mim!”.

Apesar de Selassié demonstrar interesse para o progresso, fica evidente que o seu desejo era movido muito mais pela ambição e reconhecimento, do que pelo bem estar da população.

“Eis aquele que nos trouxe o desenvolvimento”. Sonhava um súdito.

O autor procura elucidar em vários momentos a cultura da Etiópia, que, talvez, possa parecer um povo sem atitude ou avesso aos problemas sociais ou que se abstém de lutar por seus próprios direitos.

Afinal, é um povo que vê em seu rei um magnânimo e não tem forças para questionar as decisões do “enviado de Deus”.

Quando foi publicado na Polônia em 1978, e na Inglaterra em 1983, O Imperador foi percebido não apenas como um relato jornalístico, pois seu tema era um país remoto e seu autor cidadão de uma ditadura stanilista na Polônia. Isso fez que o livro fosse considerado uma alegoria.

Ao falar da autocracia etíope, como seus ministros corruptos e das pompas oficiais em contraste com a pobreza dominante, Kapuscinski na verdade estaria falando do stanilismo na Polônia, com seus burocratas aproveitadores, da repressão política e da apatia social. A Etiópia do livro serviria de metáfora para a Polônia Stanilista

“Escrevi O imperador pára os jovens poloneses que tem uma experiência política e psicológica definida, e que irão entender minha escrita metafórica. O texto é dois textos – o que se lê sobre a Etiópia e o que está debaixo dele. È uma forma de escrita secreta, um texto que é como um código secreto da prisão... Contudo O Imperador não foi escrito somente para os poloneses. Ele é sobre política, sobre como uma mudança na situação modifica a natureza das pessoas que estão envolvidas nela”.

O livro é uma ótima chance para quem quer se aventurar como correspondente internacional, e conhecer os riscos que podem ocorrer sendo um estrangeiro em um país sob guerra.

Com posfácio de Mario Sergio Conti, O Imperador é um convite não só a incríveis histórias dos bastidores de um império, mas também ao conhecimento de uma cultura tão distante da que conhecemos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário