Retratos do cotidiano
Contar o que de extraordinário acontece no cotidiano e que muitas vezes são passadas despercebidas. Toda a narrativa é uma construção da realidade. Então vamos narrar histórias, discutir, dialogar, apontar soluções, pontos de vista, ideias e opiniões.
sábado, 10 de março de 2012
O retorno
Volto, mesmo que devagar, a escrever no blog. Espero garimpar boas histórias do cotidiano das pessoas. Escutá-las, senti-las e, assim, poder transmitir- de bom e de ruim - o que cada um tem dentro de si. Como disse , não me precipitarei, mas prometo me empenhar ao máximo para trazer aos estimados leitores, belos retratos do cotidiano.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
Os Seresteiros da Praça da Luz
Trio faz um mergulho na cultura popular brasileira num resgate de canções antigas
Por Everson Bertucci, Flávio Rocha e Tainá Pio
Nos arredores da Pinacoteca e do Museu da Língua Portuguesa, entre cultura contemporânea e moderna, esculturas e monumentos, entre prostitutas, cafetões, bêbados, crianças, adolescentes e adultos, a Praça da Luz é cenário para um trio de seresteiros que fazem um resgate de canções populares, nas tardes de sábados e domingos, cantando e tocando músicas que, hoje, quase não se ouvem mais nas rádios.
Passear pela Praça da Luz pode tanto ser um divertimento, como estar perto e atento a um leque de opções culturais. Em frente a ela, o Museu da Língua Portuguesa oferece várias opções de conhecimento dentro da nossa língua. Ao lado, a Pinacoteca disponibiliza exposições de artistas relevantes nacional e internacionalmente. E nem precisa entrar na instituição para apreciar seu acervo. No próprio parque há inúmeras esculturas espalhadas, de artistas como Lasar Segall e Caciporé Torres.
Antes de atravessar o portão que dá entrada à praça, já é possível sentir o cheiro do verde. Uma jaqueira, com frutos e repleta de folhagens, dá o ar da graça. Ao entrar, pessoas de todos os tipos circulam pelos corredores do lugar. E bem próximo ao portão, sentados num dos bancos, os seresteiros Erito de Souza Leão, de 76 anos, Felimom Franco, 69, e Antônio José Gonçalves, 67, encantam a platéia que para, ouve, se encanta e segue.
Como todo o centro de São Paulo, a Luz também se tornou um lugar de passagem, e enquanto as pessoas passam, Leão dedilha o saxofone, Franco e Gonçalves o acompanham no violão. Algumas pessoas chegam bem perto do trio, outras admiram, mas ficam mais de longe. Uns se empolgam, fazem pedidos, outros, permanecem contidos, ouvindo em silêncio. Leão para o saxofone e começa a cantar. Uma voz grave, forte. Uma voz de quem já viveu e cantou bastante.
Alguns estudantes conversam com os músicos, fazem perguntas, lhes filmam, fotografam, questionam. Eles respondem, atendem, brincam, fazem piada e voltam a tocar e cantar. Num certo momento, a plateia se torna totalmente masculina. Vários homens, de diferentes idades, observam os cantores e tocadores. Seus olhares têm expressão de lembrança. Antonio Domingos dos Santos diz que sempre passa para ouvir os seresteiros. “Ouvi-los cantar me traz muitas lembranças. Lembro da minha família, de momentos que vivi. A música tem o grande poder de marcar épocas, vidas, momentos especiais. Na minha história não foi diferente”, completa.
Tudo de mais inusitado acontece nos corredores da praça. Enquanto o trio canta, passam artistas de rua com números circenses, senhoras passeiam com seus netos, senhores negociam com as prostitutas, casais passam de mãos dadas trocando carícias. Nada afeta os seresteiros, nem o barulho da trupe do circo, tampouco o estrondo dos aviões que sobrevoam o parque.
A Formação do Trio
Franco e Gonçalves faziam parte de um trio formado por outro integrante, Jorge, que tocava cavaquinho, falecido há quase dois anos. Eles tocavam samba e samba-canção, sempre na rua 15 de Novembro, no centro da capital paulista. Após a morte do parceiro, a dupla resolveu tocar no Parque da Luz, onde conheceram o saxofonista Erito de Souza Leão.
Leão conta que o encontro com a dupla Franco e Gonçalves não foi casual, pois já tinha ouvido a dupla tocar na rua 15 de Novembro e, desde então, era admirador de seus trabalhos. Quando os encontrou na Praça da Luz aproveitou a oportunidade, abordou a dupla dizendo que tocava sax e que gostaria de tocar com eles. O músico relata que, no início, Gonçalves não acreditou muito e até fez piada da situação, mas acabaram conversando melhor e formaram um novo trio.
Para eles, o compromisso é com a música e com o prazer de fazer o que realmente gostam. Eles não têm um vínculo profissional e nem a obrigação de tocar. Simplesmente se encontram porque gostam do que fazem e se reúnem para tocar aos sábados e domingos no parque, embora isso não seja uma obrigação. “A gente procura tocar aqui todo final de semana, mas quando não dá não tem briga. Nós não temos uma agenda”, completa Franco.
Os músicos
Leão é baiano, nascido em Palmares, e desde pequeno aprendeu a tocar flauta. Seu pai também era músico e tocava trombone, na banda da cidade. No fim da adolescência, se viu obrigado a parar com a música para vir trabalhar em São Paulo. Na época, Leão achava que não poderia tirar seu sustento por meio da música, principalmente quando chegou na capital paulista e constatou: “Aqui tinha um muitos músicos bons e eu era um simples ‘musiquinho’. Não tinha a menor chance”, brinca.
O saxofonista trabalhou muitos anos numa loja de calçados e quando se aposentou, resolveu voltar a tocar. “Um dia eu fui passear na Bahia, e na casa do meu irmão, num pequeno canto, eu vi um saxofone abandonado. Paguei trezentos reais por ele e trouxe comigo para São Paulo”, lembra Leão. Quando chegou à capital, após mandar o instrumento para uma reforma, começou a tirar as primeiras notas musicais.
O músico diz que quem gosta e tem intenção de seguir carreira na área musical, deve sempre treinar. “O instrumento nunca pode ficar lá no canto, parado, pois amanhã quando eu venho tocar aqui [na praça] ele [o saxofone] não vai responder. Ele precisa estar ‘amaciado’. É preciso ter contato com ele todos os dias, toda hora. O instrumento precisa de baba”, completa aos risos.
Gonçalves, com seu sorriso fácil, era camelô, no centro da cidade, ficou viúvo muito cedo e teve que criar os quatro filhos e desde cedo trouxe a música para dentro de casa. “Eu ensinei todos os meus filhos a tocar flauta, cavaquinho e pandeiro, desde crianças”. Iam todos ao centro da cidade para tocar e que conseguiu um violão velho, emprestado, para acompanhar os filhos. Na época, o filho mais velho, Cesar, tinha 14 anos e tocava flauta. “Ele tinha um dom, e foi desenvolvendo, desenvolvendo, tocava muito, e gostava de tocar choro Ele tinha a técnica”, recorda orgulhoso.
Segundo ele, o filho tocava tão bem, que um dia o garoto ganhou uma bolsa pra estudar na Holanda, mas a loucura da fama o levou para as drogas e não parou mais. Hoje, Cesar, está preso com o irmão Reinaldo, que tocava violão, na Cadeia de Guarulhos. Gonçalves ficou tocando sozinho até encontrar Franco, há mais de dez anos, e a partir de então começar a tocar com ele.
Franco, paulista do Tatuapé, toca desde os 12 anos de idade. O artista mostra orgulhoso sua carteirinha de violonista popular. Além de tocar na Praça da Luz, também participa da Orquestra Neuropolis (sem acento mesmo), que mostra a diversidade cultural da cidade nas diversas expressões musicais, tanto dos imigrantes quanto dos migrantes.
A orquestra é composta por músicos – emboladores e sambistas -que tocam nas ruas de São Paulo, além de comunidades de imigrantes que foram importantes para a formação da metrópole, como os japoneses e latinos. Desta combinação, resultou a formação da orquestra.
Nostalgia
Quem viveu entre as décadas de 20 a 50 certamente irá parar quando o trio começar a tocar: “Ah, se tu soubesses como eu sou tão carinhoso...”, de Pixinguinha, ou um Samba canção de Noel Rosa, “Perto de você me calo, tudo penso e nada falo, tenho medo de chorar...”. O resgate de músicas antigas feita pelo trio tem o intuito de não deixar que músicas da época vivida por eles, não morra. Franco diz que são canções muito bonitas e que estão caindo no esquecimento. “Podem ver que aqui chega muita gente e pede uma música, um samba canção de Nelson Gonçalves, mas tem muitos que não conhecem. Porque as musicas, foram engavetadas, infelizmente, esquecidas”, diz.
Não há quem não passe, e pelo menos por um minuto não pare, não fique curioso, quem não passe pelo caminho e cantarole, na pressa, algumas estrofes da música, em sua maioria, homens acima de 40 anos. “Antigamente as músicas tinham mais melodia, mais poesia, mexiam com as pessoas, com seus sentimentos. O Nelson Gonçalves tocava violão, cavaquinho, pandeiro. Assim como a banda Demônios da Garoa, eles ainda mantém essa tradição”, declara Franco.
É começar a dedilhar a introdução de alguma música que as pessoas que estão passando param, fazem roda, conversam com os músicos, fazem escolhas - são exigentes - dão palpites. A Música começa nos primeiros acordes no sopro do sax, logo em seguida os dois violões acompanham. Se ouve Cartola, Pixinguinha, Chico Buarque, Roberto Carlos, entre outros clássicos.
Hoje essas canções saíram do circuito, já não fazem mais sucesso. Leão, com um ar melancólico diz apesar de a qualidade musical ser superior a outros estilos, elas perderam espaço para outros gêneros como o pagode, que até utiliza um pouco do gênero para dar um tom amoroso, mas sem as letras das musicas já não são mais tão
elaboradas. A poesia em sua opinião tem faltado nas novas canções.
elaboradas. A poesia em sua opinião tem faltado nas novas canções.
Um Admirador Especial
Antonio Domingos dos Santos, que aparece no início da reportagem, é vizinho do saxofonista Leão e o conheceu há uns 6 anos, no próprio Parque da Luz. Santos declara que o músico é sua grande referência. Quando tinha 50 anos e se aposentou na profissão de ex-bombeiro do exército, resolveu realizar seu sonho de aprender a tocar saxofone e entrou numa escola de música.
Ganhou o instrumento da esposa e dos filhos, conseguiu se matricular em um conservatório de música. “O Sr. Erito foi meu grande incentivador. Quando eu o via tocando, eu sentia uma vontade imensa de tocar também”, diz o ex-bombeiro. Hoje, 15 anos depois da primeira nota tirada de seu sax, Santos diz se espelhar no vizinho. “Ele pra mim é um exemplo. Ele lê música, mas toca mais de ouvido. Gostaria de tocar de fazer metade do ele faz”, afirma.
Conta que é possível sentir a sensação que as pessoas têm ao parar para assistir o trio. “Gosto quando eles tocam um bolero, um chorinho, são minhas preferidas. Tem pessoas que param e viajam na música, outras até pedem um canção, mas ficam ali conversando sobre futebol ou outras coisas...”, diz Santos.
Aos 65 anos, pai de quatro filhos, o ex-bombeiro diz que seu sonho é tocar em um baile: “Desses da minha época, em que você entrava no salão e era repleto de mesas, pessoas de paletó, mulheres de vestidos longos. Queria também tocar numa orquestra, de fazer parte de um conjunto”, confessa emocionado.
Poetas Profanos
Para o saxofonista Leão, o país passa por uma transformação na área musical. “Atualmente o que vem acontecendo é a eliminação da música popular. Há um aumento grande de evangélicos, religiosos extremistas, que acham que a música é coisa do demônio”, contesta Leão.
Ele explica que vivenciou casos em que, onde vive, há exemplos de pessoas que passaram por esta mudança. “No bairro aonde eu moro, por exemplo, se eu sento num banco e começo a tocar um chorinho, tem gente que atravessa a rua e passa pelo outro lado. As pessoas mudam de religião e começam a detestar o que gostavam”, diz.
Para o músico, algumas igrejas fazem uma espécie de lavagem cerebral nas pessoas, que passam a acreditar que a música é algo profano. Ele completa dizendo: “A música brasileira tem sido prejudicada. É uma maldade mudar uma cultura tão rica, como a cultura brasileira.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Saudade
Eu li uma reportagem na revista Bula e foi inevitável pensar do meu pai. Ele morreu em uma noite no dia 29 de novembro de 1995, eu tinha treze anos. Desde 1988, quando ele teve o primeiro acidente vascular cerebral (AVC), víamos sofrendo com seus problemas de saúde, nessa época eu tinha seis anos.
Mas em 1995 foi diferente, meu pai foi ao médico porque estava indisposto, e como já vinha com uma serie derrames e problemas de coração na adolescência, os médicos resolveram interná-lo. Era um domingo, eu fui visitá-lo somente na quarta-feira e por insistência da minha tia. Odiava hospital e continuo odiando.
Parando e pensando sobre o relacionamento entre eu e meu pai, agora percebo que nunca fomos muito ligados. Ele tinha uma atenção maior com a minha irmã. Com ela sim, ele saia para a rua, brincava enquanto eu, ficava em casa com a minha mãe.
Cresci assim, amando-o, claro, mas mantendo uma certa distancia, era um medo de ser repreendido, repelido, sei lá.
Das lembranças que tenho uma das mais forte era que meu pai sempre me incentivava a estudar, queria que eu e minha irmã fizéssemos uma faculdade e nos formássemos. Acredito que era o seu sonho.
Lembro que quando morreu fiquei muito triste, mas não chorei, não conseguia chorar e por muito tempo eu me culpava por isso, não entendia como um filho pode não chorar quando seu pai morre. E convivi durante muitos anos com essa culpa silenciosa
A primeira vez que verdadeiramente chorei a sua partida foi quando descobri que seria pai. Eu estava com dezessete anos e senti tanto a falta de ter um pai, uma saudade que me sufocava. Senti a falta de te-lo ao meu lado para me dar conselhos, dizer que tudo daria certo, que me indicasse o caminho a seguir.
Eu me senti tão sozinho e com uma dor tão forte no peito que sentei e chorei, a culpa foi embora. Hoje, quando lembro do meu pai imagino o quanto estaria orgulhoso de ver que seus filhos estão bem, formaram-se e que hoje são pais de crianças lindas e saudáveis.
Prefiro imaginá-lo em um lugar bonito e tranquilo onde pode escutar seus sambas, ouvir no radio os jogos do corithians e principalmente sendo feliz.
domingo, 8 de maio de 2011
sexta-feira, 29 de abril de 2011
UOL Blog: indicação
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Epoca
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terça-feira, 26 de abril de 2011
Desilusões perdidas: Lembranças
Desilusões perdidas: Lembranças: "Cabelo raspado. Tinta escorrendo pela barba malfeita. Ônibus quebrado. Atrasos. Sono. Emissor, mensagem, receptor. E muitos ruídos. McLuh..."
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