segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Extraordinários anônimos

“Esse é o encanto de A vida que ninguém vê : contar os dramas anônimos como os épicos que são” (Eliane Brum). Essa é a essência do livro “A vida que ninguém vê” (Arquipélago Editorial) escrito pela jornalista Eliane Brum.

Jornalista consagrada, Eliane foi convidada no final dos anos 90 a escrever crônicas-reportagens,  sobre situações reais de pessoas que são, em muitas vezes, invisíveis aos olhos da sociedade. O sucesso foi tamanho, que resultou no livro.

Eliane Brum é gaúcha de Ijuí, e já ganhou mais de 30 prêmios de reportagem, entre eles o Açorianos de Literatura como autora revelação, pela publicação em 1994 de “Coluna Prestes – O Avesso da lenda”, onde refez em 44 dias a marcha da Coluna Prestes, entrevistando depois de 70 anos os brasileiros que na década de 20  fizeram parte daquela história.

O livro “A vida que ninguém vê” foi o vencedor do Prêmio Jabuti de 2007 como o melhor livro de reportagem. Não muito diferente do que fez em “Coluna Prestes”, neste livro ela também relata histórias reais. São 21 narrativas extraordinárias de pessoas comuns, heróis da vida real que poderiam nunca ter virado noticia, se não fosse pelo olhar de Eliane.

O livro tem uma linguagem fácil e sofisticada, muitas vezes com relatos tão minuciosos que parecem fictícios. Com personagens reais, mas que só existem, graças ao toque da autora, que consegue extrair as mais impressionantes versões.

“O que eu procuro fazer é tirar essa poeira e mostrar que o banal pode ser extraordinário. Isso é libertador", destaca a autora, que acredita que o jornalismo tem que aproximar mundos e quebrar jeitos viciados de olhar a realidade.
Boa ouvinte, Eliane não possui fórmulas para fazer com que as pessoas entreguem as histórias de sua vida em suas mãos. Mas é convicta que não se deve arrancar nada de ninguém, as pessoas é que deverão confiar seus relatos.
 Um bom exemplo desta convicção é quando Eliane encontra Sapo, um mendigo de Porto Alegre que há 30 anos passa o dia na mesma posição, “tive que curvar o pescoço, me agachar e colocar meus olhos no mesmo plano dos olhos dele, quando venci a diferença de centímetros e olhamos um nos olhos do outro, estabeleceu-se a confiança.”
A partir deste momento acontece um dos relatos mais comoventes do livro, a mudança do olhar foi transformadora. “Eliane o mundo é bom, só é mal frequentado”, afirmou Sapo.
 A autora procura com toda sua sensibilidade mostrar que muitos (talvez até ela) ainda possuem uma visão acostumada das coisas, cria-se um estereótipo da realidade, com disse no livro: “Acabamos criando uma catarata nos olhos”.
Como na história do gaúcho de cavalo de pau, que todo ano invade os rodeios em cima de um cabo de vassoura, como se fosse seu cavalo "Ele chegava, passava pela inspeção veterinária, cavalgava e todo mundo o via como louco. Era o louco do cavalo de pau. Eu simplesmente não acreditei nisso e fui conversar com ele, perguntei se ele achava que aquela vassoura era um cavalo", relata.
A resposta: "É claro que eu sei que esse cavalo é um cabo de vassoura. Mas se eu não inventasse esse cavalo, a vida ficaria muito triste".  
 Além de uma leitura singular, a autora pretende ainda que seu livro seja utilizado nas faculdades de jornalismo, a fim de reverter ao que se chama hoje de “reportagem externa”. Onde as entrevistas são realizadas por telefone ou e-mail. É uma verdadeira campanha pela volta do jornalismo que vai para as ruas (que suja os pés) que prioriza a noticia através do olhar do repórter. Olhar tem aqui o sentido de ver o outro lado, e não somente verificar as informações através do telefone ou internet.
Com prefácio de Marcelo Rech e posfácio de Ricardo Kotscho “A vida como ninguém vê” é um convite não só à boas histórias com extraordinários personagens anônimos, como também uma conceituação didática aos jovens jornalistas, mostrando-se como se deve fazer o bom jornalismo.  


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